quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Barcos e espelhos

É de longe que fito o que quero
Sem nunca me aproximar do objeto de desejo
E desejo distante o que almejo
Vendo refletido em mim o que não vejo

Não sou o meu próprio espelho,
Nem sou vela para o vento que em mim sopra,
Sou eu almirante e barco onde me navego,
Esperando a assinatura vã dessa triste obra,

É ausente que acho meu enleio,
Abstraindo do que possuo o que já não tenho,
É em mim que apago a borracha o que não leio,

Como cria que tira o sustento do próprio seio,
Eu me acho naquilo em que me empenho,
E no fim da lida, sou apenas ilha com saudade do barco que nunca veio.

Douglas Alves

Poesia

Lou Andreas-Salomé

Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

Fonte: http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/poesia.asp?poesiaid=470




Grandes são os desertos

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Lista de presentes para um aniversário que não vai chegar...

Manhãs azuis
Tardes douradas
E noites inspiradoras
O doce do chiclete, e não o amargo da boca
Capacidade de ouvir as coisas crendo piamente sem me importar o quão fantasiosas possam parecer
Dias tristes pra quebrar a rotina, quando dia triste não for rotina
Livros que me levem para um além de mim
Musicas que me façam levitar
Filmes que me façam chorar de alegria
Um corte de cabelo com o qual sempre sonho
Minha coleção de playmobil de volta
Minha vontade de brincar com playmobil de volta
Me conhecer melhor, só pra voltar a me perder no meu emaranhado de “eus”
Dormir pensando em ser feliz, sonhar com sorvete de chocolate, e acordar com gosto de recreio no céu da boca
Palavras engraçadas em poesias bobas e despretensiosas
E ter eternamente essa minha vocação pra palhaço sem picadeiro
Um sedativo para o meu pessimismo, e um energético pra minha euforia
Caixas de primeiros socorros no caminho que trilho
Que o gosto do danoninho não estranhe meu paladar
E que ainda exista motivos pra se pensar em revolução
Capacidade de voltar a crer nas pessoas
Ser metade do homem que foi meu pai
E apesar de não crer em céu, acreditar que minha mãe tem seu cantinho garantido
Ter uma relação harmoniosa com as pessoas que vi crescer, minha irmã e meu irmão
Ter a chance de voltar no passado só pra cometer os mesmos erros
Ter um filho, e poder dizer pra ele que ser honesto vale a pena
Ter sempre no seu afeto um cantinho pro meu aconchego
Uma banda de fanfarra pra me acordar todos os dias
E um coral de anjos pra me por pra dormir
Uma colombina pra alegrar o bobo sem corte que sou,
Minha capacidade de amar intacta,

“...Um espelho mais feliz...”



Douglas Alves

A COMÉDIA DA VIDA

por Sérgio de Agostino

- Que bela comédia! - disse madame Juliana, apoiando-se no braço do marido. Sorridente, ele assentia com ligeiro inclinar da cabeça àquela observação da esposa, enquanto desciam as escadas de acesso à rua.
O burburinho dos espectadores parecia aprovar a satisfação do casal. Muito loquazes, todos traziam um sorriso de incontida alegria, próprio de quem desfrutara ao máximo o espetáculo.
Na rua, uma garoa típica das frias noites de junho dispersou, rapidamente, o público que, há pouco, lotara a sala. Alguns minutos após a saída, o teatro mergulhara em profundo silêncio, como se nada houvera acontecido, como se o público lá não estivera, enchendo-o com o alarido dos comentários e aplausos. Agora, só o eco de tardos passos do zelador se faziam ouvir subindo a escadaria que ligava o saguão de entrada à platéia escassamente iluminada por diminutos focos de luz colocados, espaçadamente, nas paredes laterais. Ao fechar a sala e correr a cortina, ouviu, assustado, vozes no palco. Colhido de surpresa, as pernas bambearam-lhe e, não podendo suster o corpo, espichou-se redondamente numa poltrona. Não podia crer no que via: a cortina do palco aberta, as luzes da ribalta acesas, e vozes, muitas vozes falando ao mesmo tempo, como se os atores ainda lá estivessem representando os seus papéis. Aturdido, procurava ver os donos das vozes, mas nada divisava, a não ser alguns objetos se movimentarem em cena tocados por invisíveis mãos. Um suor gelado umedeceu-lhe as têmporas. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. Uma sensação de impotência travou-lhe os movimentos, deixando-o hirto, como se o houvessem colocado numa camisa de força. Pouco a pouco, foi vencendo o estupor e, atento à fala das personagens, ouviu:
"- Ah! O público...Reage como se as estocadas não fossem dirigidas a ele. Vocês viram como madame Juliana sorriu de forma velada quando dissemos que o adultério é o que liga três pessoas sem uma saber. Pobre marido, que se desfez em riso, sem perceber que era o alvo de tão certeira seta."
"- Sim, é verdade - atalhou uma voz masculina. - O palco é o grande espelho, o confessionário público onde, às escondidas, um alto-falante espalha, sem pudor, aquilo que se pretende esconder."
E ouve-se ainda:
"- E o jovem de mãos dadas àquela senhora de idade bem avançada, coberta de finas jóias? Vocês perceberam com que dissimulação ele a acariciava?"
"- Não tão dissimulado - disse outra voz - que não pudesse ocultar de todo a aversão sentida por aquele pergaminho humano."
"- O interesse - fala tudo que é língua, meus caros, e representa tudo que é personagem, mesmo a do desinteressado - disse uma voz pausada e monótona que, ao julgar pela inflexão, devia ser de pessoa mais experiente, mais vivida."
"- É verdade - acrescentou outra voz não menos versada na arte de viver - quando eu era jovem acreditava que só o dinheiro podia comprar tudo. Agora que sou velho: tenho certeza."
Uma gargalhada vinda da platéia denunciou a presença de quem não fora convidado para ouvir os comentários feitos à margem do texto. Assustadas, as personagens abandonaram a cena. A cortina rapidamente se fechou. As luzes apagaram-se. Era o fim de mais um ato da ridícula comédia humana.
Já refeito do susto, o zelador, que a tudo estivera atento, viu, sobre uma poltrona, a um canto, um cartão orlado de delicados arabescos, onde uma letra nervosa escrevera: "Obrigada pela inesquecível noite. Quando repetiremos a aventura? Nada tema: meu marido sairá em viagem de negócio dentro de uma semana."
Sobre a cortina do palco, bordada em alto relevo, enlaçada à máscara da tragédia, a comédia trazia, na boca escancarada, a gargalhada provocada pela comédia da vida.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

SAUDADES NO ARMÁRIO

Saudade palavra que alguém;
Fez-me sentir ao partir.
Consome e traz amor pela eternidade.
Eu sinto, eu respiro, eu saio, eu grito;
E lá ela permanece.
Por que eu luto?
Os lugares mudam;
Ela é a mesma.
Quem traz saudade;
Não é por maldade.
Você se foi e não vai voltar;
Você se foi e me fez chorar.
Eu nem me despedi;
E quando vi já estava sem ti.
Estou aqui e sempre rezo por ti;
Pra te mostrar que não te esqueci!

Aline lira
alineleelira@gmail.com

Esse não é você, disse Paulo!


Tomaram-me pelo o que eu não era,
Na embriagues do copo eu refletido,
Em noites cinzentas, entre bons amigos,
Procurando a realidade de um ser sem dia a dia,

Tomaram-me por outro que distante de mim
Parecia ser mais real do que meu próprio toque,
A dor indivisível de um corte a gilete na carne frouxa,
A voracidade mórbida de um soco no saco de areia,

Vestiram-me com outras roupas,
Que não me cabiam com perfeita simetria,
Tenho saudade da bola de capotão,
E do meu singularíssimo entendimento da palavra alegria,

Desenharam-me com outros traços,
Pouca tinta e nem uma luz,
Mal sabem eles que esse desenho eu mesmo faço,
Com a incerteza do lápis que me conduz,

Traço a traço fizeram o que devera eu ser,
Sem hesitantes traços, sem cores, senão as que tenho,
E nessa luta infinda entre o que sou, e o que seu lápis fez de mim,
Restou um homem mal desenhado que traz nas veias o tom do próprio carmim...

Douglas Alves



quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Ressaca

A vida é um gole,
Dado as pressas,
Engolido a seco,
E há quem diga que embriaga de uma só vez,
Num instante tão único que chega a se confundir com o primeiro gozo.

A vida é um gole,

Amargo,
Quando falta doçura nos olhos da alma,
Engolido com expressão facial,
Num instante tão imorredouro que nem o pensamento alcança,

A vida é um gole,

Inodoro pra quem esta só de passagem,
Engolido sem tempo de espera na esfera do memorável,
Num instante que não merece fotografia, nem mesmo a da lembrança,

A vida é um gole,

Advindo de uma necessidade única e exclusivamente biológica,
Com sabor de contentamento,
Num momento tão preciso, que o olho humano não se habilita a ver,

A vida é um gole,
Agradável sabor que vem pra matar uma sede infinda,
Engolido com gosto de jardim no deserto do não se conter,
E há quem diga que é capaz de beber todo um ribeirão,
Num instante que traz a meu paladar um sabor de soverte de flocos,
Nos tempos idos de minha infância,
Quando eu bebia, e a idade não vinha me dizer,
Que o segredo de beber essa vida,
É envesgar os olhos e virar o copo que nem criança...

Douglas Alves