quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Crônica - Sentidos

O Gelson explicou que tinha sido inundado pelos sentidos. Foi a palavra que usou: inundado. Entrara na cozinha e a Desilaine, a nova cozinheira, estava fazendo um lagarto na panela com muito alho, como sua mãe fazia, e o aroma era o da sua infância. Pegou um aipim frito que esfriava em cima da geladeira e começou a mastigá-lo, e olfato e paladar, para decidir qual dos dois era mais feliz naquele instante mágico, só numa melhor de três. Ao mesmo tempo a cozinha enfumaçada, com um faixo de luz natural fazendo brilhar as maçãs artificiais da mesa, enchia os olhos de Gelson como uma composição da escola flamenga do século XVII. E como se não bastasse isto, no rádio tocava uma música do Caetano. O único sentido que não acompanhava o êxtase dos outros quatro era o tato, e Gelson olhou em volta, atrás de algo para ocupá-lo. Uma das nádegas da Desilaine cabia, miraculosamente, na palma da sua mão, e a sensação da carne rija através do brim, explicou Gelson, completava maravilhosamente aquela tomada sincronizada das portas da percepção humana. Quando dona Zuleica entrara na cozinha, não flagrara uma prosaica mão na bunda da empregada. Interrompera um tableau de plenitude, um momento de sinergia entre memória e experiência que raramente se abre ao Homem, explicou Gelson. Mas dona Zuleica não quis nem saber, despachou a Desilaine e até hoje não fala com o marido, que não pára de lamentar a falta de sensibilidade poética no mundo moderno.

Luís Fernando Veríssimo

Desencontrários

Paulo Leminski

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.


Fonte:
http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/dist_ven.htm

Texticullini 1

Essa é a história de uma guerra. Observe bem, companheiro. Aqui não há tempo pra coisas desnecessárias. Não estamos lidando com excesso. O ar aqui é de falta e falta.

Tenho dinheiro na mão. Todo mundo quer isso e faz muita coisa por isso, né, dinheiro. Eu tenho. Basta achar quem queira fazer o que eu quero que façam. Não é difícil.

Eu aqui tenho o meu corpo. Vendo por preço qualquer. Mas prefiro que seja por sonho. Gosto de me iludir. É legal acreditar que se é feliz de vez em quando.

Em tempos de guerra não se permitem excessos, já avisei, companheiros.

Pulo fora de um relacionamento toda vez que vejo que o negócio tá ficando mais sério. Onde já se viu me entregar? Em troca de quê? De crença?


Por sete meses mantive relações com aquela porta. Sua madeira não era boa e a fechadura nunca me deixava ver o que tinha dentro, mas não posso dizer que foi ruim.
O abraço dele era tão macio quanto seria o abraço de um mandacaru.


por Lívia Lima

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Poema

Apoi abri teus oi, tua boca
e assei a minha.
Cuma tava crua
Te apussui e
eu e tu se assando todo.

Assassino.

Assassinarei teus olhos,
desmantelarei teu olhar
para deixar tuas mãos e teu olhar no vazio.
Guerrearei contra todos os portos,
serei ilha, num pacto com outro sol,.
Desintalarei tuas informações , e arrancarei as cores
que impusestes a mim.

Rasgarei.

Sp.02.95

Olhar de um Paulistano

Inspirado na Poesia Sétimo olhar paulistano da poeta Aline Lira
_

Terra, aqui já não vejo,
Cimento cinza, brilho de azulejo,
Um jardim de pedras a se regar,

A vista estreita, já não inaugura paisagem,
A poluição só inventa miragem,
E a sarjeta é travesseiro pra sonhar,

Silencio aqui, só se escuta,
Dia e noite, é sempre labuta,
Pra ver crescer essa cidade sem par,

Paz aqui é concreto e publicidade,
Retrato fiel da nossa abandonada cidade,
Onde a esperança pensa em se suicidar,

Quem aqui se atirou em busca de um lugar ao sol,
Molhou-se na garoa, urinou no lençol,

Assustado agora quer pra casa voltar,

Douglas Alves

Eu tomo pinga, eu não sei o que é melhor pra mim?

A suavidade poética que impregna os acordes pegajosos das canções da banda mineira Pato Fu deixa bem claro que temos sim, uma banda Pop de altíssima qualidade.

Para aqueles ainda não habituados a ouvir um Cd sem se despir das diversas influencias mercadológicas que insistem em vincular hit’s grudentos e, estereotipar os artistas como se fossem esses produtos ao alcance das mãos nas prateleiras da vida, ao ouvir o som do Pato Fu, provavelmente terão a impressão de estar diante de mais uma banda adolescente.

Esse ledo engano, faz com que Fernanda Takai, John e compania sejam tratados como compositores menores, empoeirando de forma prematura uma obra que deveria servir de molde para as diversas bandas que se arriscam nesse terreno perigoso e infértil qualitativamente falando chamado de cenário Pop.

A diversidade de timbres, os arranjos atemporais, a voz pluma de Takai, e a poesia explicita nas canções de John, somados a uma irreverência inteligentíssima, fazem do Pato Fu a melhor e banda Pop do Brasil.



Simplicidade

Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha
Mais sincero o bom dia

Mais mole a cama em que durmo
Mais duro o chão que eu piso
Tem água limpa na pia
Tem dente a mais no sorriso

Busquei felicidade
Encontrei foi Maria
Ela, pinga e farinha
E eu sentindo alegria

Café tá quente no fogo
Barriga não tá vazia
Quanto mais simplicidade
Melhor o nascer do dia

Caça aos gênios do texto


A revista literária Granta revelou autores como Salman Rushdie, Ian McEwan e Hanif Kureishi. Saiba quais são as novas apostas do título britânico, que sai agora em português.

A cada dez anos, a conceituada revista inglesa Granta publica sua seleção de melhores autores jovens. Foram três edições na Grã-Bretanha, em 19 83, 1993 e 2003 — que destacaram gente como Salman Rushdie, Ian McEwan, Hanif Kureishi e Zadie Smith — e duas nos Estados Unidos, em 19 96 e 2006 — que revelaram, entre outros, Jonathan Franzen e Jeffrey Eugenides. A novidade é que, pela primeira vez, traduz-se esse compêndio entre nós. Assim, um ano após o volume mais recente ter saído em seu país de origem, os brasileiros podem conferir os jovens ficcionistas que, na opinião de Granta, devem fazer a diferença literária nos Estados Unidos.

Alguns desses autores são conhecidos. É o caso de Jonathan Safran Foer, autor de Tudo É Iluminado, e de Uzodinma Iweala, que escreveu o empolgante Feras de Lugar Nenhum. Na coletânea de Granta, Foer mantém a qualidade com Quarto Após Quarto, contraponto lírico entre uma paciente moribunda e seu médico, mas Iweala decepciona com Dança Cadaverosa, um registro banal de conflitos familiares.

Bem melhor é o conto Procriar, Gerar, de Anthony Doerr, que parte de um tema comum — a dificuldade de um casal para ter filhos — para compor, com habilidade narrativa notável e de criação de imagem, um afresco sobre as aspirações e decepções humanas. Ou Mãe e Filho, de Akhil Sharma, que traça um retrato vívido de uma família de imigrados indianos, cujos percalços são vistos pela perspectiva de um menino. Ou ainda O Rei Está Acima do Povo, do peruano Daniel Alarcón, sobre o destino incerto das novas gerações em um país que, como muitos da América Latina, equilibra-se entre a democracia recente e a pobreza crônica.

LEGIÃO ESTRANGEIRA
Como Alarcón e Sharma, muitos autores nasceram ou foram criados em outros países: Olga Grushin e Gary Shteyngart (Rússia), Yiyun Li (China) e Rattawut Lapcharoensap (Tailândia). Gera-se, assim, um traço interessante, pois diversas histórias só abordam tangencialmente (ou nem isso) temas americanos. A de Olga Grushin (Exílio), por exemplo, fala de um emigrado russo na Paris dos anos 20, enquanto a excelente Manobristas, de Lapcharoensap, situa-se na Bangcoc atual. Mesmo as narrativas que se passam nos Estados Unidos tratam muitas vezes de suas minorias, como o texto de Iweala, ou o curioso Pessach em Nova Orleans, de Dara Horn, sobre o papel dos judeus na Guerra Civil norte-americana.

Multiculturalismos à parte, pode-se dizer que se, cem anos atrás, os Estados Unidos precisavam deitar os olhos sobre o mundo (sobretudo a Europa) para produzir sua arte, agora é o mundo que pousa o olhar nos Estados Unidos. E o resultado artístico não deixa de ser, no geral, bastante promissor.

*por Marcelo Pen

Fonte:
http://bravonline.abril.uol.com.br/indices/livros/livrosmateria_253427.shtml?page=2